Tradicionais eventos de PG não podem ser prejudicados por projeto de concessão | aRede
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Tradicionais eventos de PG não podem ser prejudicados por projeto de concessão

Espaço acolhe importantes e tradicionais eventos que movimentam a economia e cultura local

O cantor Gusttavo Lima se apresentou ao público da Münchenfest em 2025
O cantor Gusttavo Lima se apresentou ao público da Münchenfest em 2025 -

João Victor

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A concessão do Centro de Eventos de Ponta Grossa à iniciativa privada foi pautada nesta semana pela Câmara Municipal de Ponta Grossa (CMPG), durante a primeira Sessão Legislativa Extraordinária. O projeto volta ao centro do debate público, mas não é recente. A proposta já havia sido discutida em 2017, quando os custos para manter o espaço giravam em torno de R$ 30 mil mensais. À época, o valor já levantava questionamentos sobre a viabilidade de manter a administração exclusivamente pública.

Em 2023, o local voltou a ser tema de discussão, desta vez com a proposta de transformá-lo em um polo tecnológico. Apesar das justificativas apresentadas pelo então prefeito Marcelo Rangel, a iniciativa não avançou. Agora, novamente em evidência, a possível privatização do prédio — atualmente sob administração do governo municipal — suscita questionamentos sobre as oportunidades e os desafios caso a proposta seja aprovada pelo Legislativo.

Somente em 2025, o Centro de Eventos sediou diversas programações, entre elas a 34ª edição da Münchenfest e o Fé Ponta Grossa. Neste ano, a 43ª Fesuva terminou com público superior a 20 mil pessoas, segundo a organização. Para parte do setor produtivo, a concessão pode representar novas possibilidades de desenvolvimento. É o que avalia Karen Kobilarz, conselheira da área de Turismo do Grupo aRede.

“A proposta de concessão do Centro de Eventos à iniciativa privada pode representar um avanço importante para o setor de Turismo e Cultura, especialmente sob a perspectiva da profissionalização da gestão do espaço. Um dos principais aspectos positivos está justamente na possibilidade de implementação de um modelo de gestão mais técnico, com foco em eficiência operacional, planejamento comercial, captação ativa de eventos e manutenção permanente da estrutura. Equipamentos dessa natureza exigem atualização constante, tanto em termos tecnológicos quanto estruturais, para acompanhar as exigências do mercado de eventos”, afirma.

A Münchenfest, ou Festa Nacional do Chope Escuro, é um dos eventos mais tradicionais de Ponta Grossa.
A Münchenfest, ou Festa Nacional do Chope Escuro, é um dos eventos mais tradicionais de Ponta Grossa. |  Foto: Divulgação/PMPG.
 

MODERNIZAÇÃO E COMPETITIVIDADE

Karen defende que a medida pode impulsionar uma nova perspectiva sobre a qualidade e o aspecto físico do local. Segundo ela, há necessidade de modernização e revitalização para que o Centro de Eventos consiga comportar diferentes formatos, como feiras setoriais, congressos científicos, eventos corporativos, espetáculos culturais e encontros nacionais e internacionais. “Hoje, a cidade carece de um equipamento verdadeiramente multifuncional e competitivo nesse segmento”, pontua.

Na avaliação da conselheira, um Centro de Eventos moderno e bem gerido pode induzir o desenvolvimento do entorno, estimulando o fortalecimento de hotéis, restaurantes, locadoras de veículos e demais serviços. “O turismo de eventos possui forte efeito multiplicador na economia local”, destaca.

Ela ressalta, no entanto, que o modelo de concessão deve preservar a função pública do equipamento. “É fundamental que o contrato garanta o atendimento às demandas culturais e institucionais do município. Sob a ótica do desenvolvimento territorial, a profissionalização da gestão pode posicionar a cidade de forma mais competitiva no cenário estadual e nacional.”

Questionada sobre a logística de acesso ao espaço, Karen afirma que a localização exige planejamento específico. Entre as estratégias possíveis, cita melhorias na sinalização turística e viária, operação de transporte dedicado em grandes eventos, parcerias com hotéis e agências receptivas, investimentos em mobilidade urbana e iluminação no entorno, além do uso de tecnologia para organização de rotas e fluxos.

A 43ª edição da Festa da Uva (Fesuva) recebeu 20 mil participantes.
A 43ª edição da Festa da Uva (Fesuva) recebeu 20 mil participantes. |  Foto: Divulgação/PMPG.
  

PRESERVAÇÃO DE EVENTOS TRADICIONAIS

Para o produtor cultural Eduardo Godoy, conselho de Cultura do Grupo aRede, diretor da Estratégia Projetos Criativos e conselheiro fiscal do Sindicato dos Empresários e Produtores em Espetáculos de Diversões no Estado do Paraná (SEPED-PR), o modelo adotado será determinante. “Acredito que os critérios da concessão vão definir como os eventos tradicionais serão preservados. É fundamental a participação da sociedade nas audiências públicas que deverão anteceder a definição. Precisamos preservar o que há de positivo e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas ideias”, afirma.

Godoy vê a concessão com perspectiva favorável, citando exemplos de espaços que passaram por processos semelhantes em outras cidades, como Riocentro (RJ), Distrito Anhembi (SP), Centro de Convenções de Salvador, Minascentro (BH) e Centro de Convenções AM Malls (Aracaju). “São espaços revitalizados, versáteis, com agenda robusta e planejamento de longo prazo. Tornaram-se ativos urbanos potencializados pelas concessões e geram resultados econômicos e sociais”, argumenta.

Ele destaca ainda o cenário nacional do setor. “O segmento de eventos criou mais de 186 mil vagas de emprego formal e movimentou R$ 140 bilhões no Brasil em 2025, recorde da série histórica. Municípios preparados para receber grandes eventos saem na frente. Ter um Centro de Eventos estruturado é estratégico.” Apesar da expectativa, Godoy pondera que as discussões ainda estão em fase inicial. “Não há consenso no setor. Sou favorável, desde que o projeto seja amplamente debatido e inclua critérios que garantam a participação de empreendedores locais na agenda e na prestação de serviços.”

VISÃO DOS PRODUTORES DE EVENTOS

A produtora de eventos Nadja Marques também avalia que o Centro de Eventos precisa passar por uma readequação estrutural. Segundo ela, quem atua no setor em Ponta Grossa encontra limitações para investir em eventos de maior porte. “Hoje a gente enfrenta dificuldades, e a estrutura atual deixa a desejar”, afirma.

De acordo com Nadja, os custos para tornar o espaço operacional acabam afastando produtores. “Se você vai realizar um evento no Centro de Eventos, o custo para deixá-lo em condições adequadas de funcionamento é muito alto. Muitas vezes, a escolha por outro local ocorre por uma questão estrutural”, explica. Ela reforça que desafios continuarão existindo, mesmo com uma eventual concessão, mas acredita que o modelo pode abrir caminhos mais equilibrados para o setor. “Havendo a concessão e uma empresa responsável pela exploração do espaço, independentemente da discussão sobre custos após as benfeitorias, ainda assim pode haver uma relação custo-benefício saudável. Todos ganham: os produtores, o público e a cidade, que passa a ter condições de receber eventos de maior porte.”

Nadja cita como exemplo a realização de eventos empresariais com público superior a mil pessoas em municípios vizinhos. “É inadmissível que grandes empresas promovam eventos desse porte em cidades como Carambeí e Castro, e não em Ponta Grossa. Não que essas cidades não sejam merecedoras — elas se estruturaram para isso —, mas Ponta Grossa, pelo tamanho, pelo nível de industrialização e pela demanda que possui, também deveria estar preparada para receber esse tipo de evento”, conclui.

O Festival de Balonismo de Ponta Grossa está previsto para acontecer em 2026
O Festival de Balonismo de Ponta Grossa está previsto para acontecer em 2026 |  Foto: Divulgação/PMPG.
  

Sob a ótica técnica e operacional, o produtor Iran Taques, da Its Produções, avalia que a concessão pode garantir investimento e modernização, mas alerta para riscos no modelo. “Um espaço daquele tamanho precisa de atualização constante e fluxo financeiro ao longo de todo o ano. Se for para conceder, que seja para transformar o Centro de Eventos em algo maior do que é hoje. Não pode funcionar apenas como palco de shows ou eventos pontuais. Precisa se tornar um complexo de eventos e negócios, com estrutura para feiras, congressos, exposições, formaturas e eventos corporativos acontecendo simultaneamente”, defende.

Para ele, o risco está em uma concessão limitada. “Se for pensada apenas como locação para eventos, já nasce pequena. Shows sozinhos não sustentam uma estrutura daquele porte.” Iran também aponta que mudanças no modelo podem impactar os valores cobrados. “Quando realizada pelo poder público, parte dos custos era subsidiada, permitindo ingressos mais acessíveis. No modelo privado, os custos reais entram no preço.”

Questionado sobre possível aumento nos custos de locação para produtores locais ou entidades culturais, ele afirma que o essencial é romper com a lógica de eventos sazonais. “O Centro de Eventos precisa ter vida durante a semana. Hotel, restaurantes, salas corporativas, estacionamento estruturado, espaços menores para eventos simultâneos. Quando se cria um ecossistema, o custo não fica concentrado apenas nos grandes eventos.”

Sobre o risco de elitização, pondera: “Tudo depende da proposta. Se for para poucos eventos e preços elevados, não faz sentido. Mas, se for um complexo aberto a diferentes públicos e atividades, a cidade ganha.” Ainda em tramitação, o projeto precisa passar por análise, votação e possíveis emendas. O Executivo sustenta que a concessão pode aliviar os cofres públicos. Caso a proposta não avance, Iran defende que ao menos se pense em concessões parciais. “O fundamental é ter projeto e visão de longo prazo. A decisão mais importante não é se será público ou privado, mas o que se espera dessa área nos próximos dez anos.”

LEIA UM RESUMO DA NOTÍCIA

- A Câmara Municipal de Ponta Grossa retomou o debate sobre a concessão do Centro de Eventos à iniciativa privada, proposta já discutida em 2017 e 2023. O tema voltou à pauta após o espaço sediar grandes eventos em 2025, reacendendo questionamentos sobre custos, modernização e viabilidade da gestão pública.

- Representantes do setor de Turismo e Cultura defendem que a concessão pode profissionalizar a gestão, modernizar a estrutura e tornar o espaço mais competitivo, impulsionando a economia local. Destacam, porém, a necessidade de garantir a função pública, preservar eventos tradicionais e assegurar participação de empreendedores locais.

- Produtores de eventos apontam limitações estruturais e altos custos atuais, que dificultam a realização de grandes programações em Ponta Grossa. Avaliam que a concessão pode atrair investimentos e ampliar o uso do espaço, mas alertam para riscos como aumento de preços e elitização, caso não haja planejamento estratégico de longo prazo.

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