Ponta-grossense relata experiência como voluntário na guerra da Ucrânia
Eduardo Kedan, de 24 anos, atua como motorista de combate e conta ao Portal aRede como decidiu integrar, de forma voluntária, o conflito no leste europeu

Quase quatro anos depois, a guerra entre Rússia e Ucrânia segue sem perspectiva de um desfecho próximo. Os ataques, que tiveram início em 2014 com a anexação da Crimeia pela Rússia, se intensificaram em larga escala a partir de 2022, quando o Kremlin ordenou ofensivas ampliadas no território ucraniano.
Morador de Ponta Grossa, Eduardo Kedan, de 24 anos, deixou o Brasil para atuar de forma voluntária no conflito. Em entrevista ao Portal aRede, o ponta-grossense, que trabalha como motorista de combate, relatou como tomou a decisão de deixar o país e atuar na linha de frente da guerra no leste europeu.
O combatente conta que o desejo de ir para a Ucrânia surgiu ainda no início da guerra. “A minha vinda para cá, a vontade de vir para cá, já se iniciou em 2022, mas eu não tinha os meios para vir. Então, eu decidi vir para cá quando eu conseguisse esses meios monetários”.
Há nove meses longe do Brasil, Eduardo relatou como a família reagiu à decisão. “Meu pai e meu irmão me apoiaram, já o resto da minha família não ficou tão feliz, obviamente, mas tive um grande apoio do meu pai e do meu irmão para vir para cá”.
Chegada à Ucrânia
Questionado sobre a chegada ao território em guerra e a sensação de estar exposto ao perigo, o jovem afirmou que se trata de uma percepção muito pessoal. “Eu mesmo senti que eu devia trabalhar e ajudar, é simplesmente isso. Eu vim para cá para isso, então não tem outra resposta, eu vim para trabalhar e ajudar”, completou.
Durante o início da atuação na zona de conflito, Eduardo conta que se assustou com os ataques, mas afirma que não se deixou intimidar. “Eu tive contato, sim. Dois Iskanders atingiram a minha posição. Os Iskanders são mísseis balísticos com bombas cluster. O choque em si foi apenas por milissegundos, porque eu sabia que eu vim para cá para isso acontecer, isso poderia ser uma possibilidade, e realmente se tornou uma possibilidade. Mas não me deixei abalar e prossegui com a missão, saliando os feridos e tudo. Esse foi o primeiro contato que eu tive realmente forte, por assim dizer”.
Ele também descreveu o cenário encontrado após os ataques. “Eu vi meus camaradas sem pernas, sem cabeça, com as entranhas de fora, sem braço. Começamos a aplicar torniquete, retirar civis, tinha civis na localidade, os civis também estavam feridos. Foram uns 15 minutos de evacuação mais intensos da minha vida, porque estávamos em bastante pessoas naquela localidade”, disse.

Salários
Atuando de forma totalmente voluntária e arcando com os próprios custos de translado, Eduardo afirma que nunca se iludiu com promessas financeiras. “Essa questão monetária, nenhum soldado ganha bem ao redor do globo. É um salário de soldado, é um salário bom, mas ninguém fica rico aqui. Você não pode vir aqui achando que vai ficar milionário, que vai ficar rico, que vai conseguir juntar uma boa quantia de dinheiro. Isso não existe. É um país em conflito e eles não têm capacidade para pagar 2, 3, 4, 5, 10 mil dólares. Nenhum oficial aqui ganha isso”.
Processo seletivo
Nos últimos anos, relatos de brasileiros que tiveram suas funções alteradas ao integrarem as forças armadas da Ucrânia ganharam espaço nos noticiários e nas redes sociais. Eduardo, no entanto, afirma que seu caso foi diferente. “Eu já vim para cá com a vaga de motorista de combate. Eu tenho meus certificados, estudo com blindados, tenho experiência, então eu já vim com essa vaga certa. Entretanto, a minha formação foi de infantaria, mas eu nunca trabalhei como infantaria. Os recrutadores aqui, quando você está realizando a entrevista, eles falam: ‘ó, o seu perfil é para a infantaria’, tem isso, tem aquilo, eles explicam certinho”.
Segundo ele, há exigências claras para atuar na linha de frente. “Se o camarada tem experiência com drone, ele tem que saber inglês. Se ele não sabe inglês, ele não trabalha com drone. Isso também é dito no recrutamento. Só que o pessoal, principalmente brasileiro, acha que consegue. ‘Chegando lá eu descubro, eu desenrolo, eu consigo ir para lá’. Não, não é assim. Muitos brasileiros acham que conseguem dar o jeitinho deles, mas não é assim”, afirmou.

O processo seletivo ocorre por meio do site oficial da Legião Internacional para a Defesa da Ucrânia, ligada ao governo ucraniano. Para participar, é necessário ter entre 18 e 60 anos, não possuir doenças crônicas e ter possibilidade de entrada legal no país. Experiência militar anterior é considerada relevante, mas não obrigatória.
“Assim, eu já tinha certos amigos aqui, entrei em contato com eles também, realizei minha inscrição pelo site, tudo certinho, e aí me desloquei para a Ucrânia. Dentro da Ucrânia, tem uma data específica para você se apresentar. Aí são realizados testes de aptidão física, intelectual, testes de QI e tudo mais, para então você poder entrar”, explicou Eduardo. Ele também comentou sobre possíveis impedimentos legais. “O governo brasileiro não te impede de viajar, entende”.
Críticas após a decisão
Eduardo também comentou sobre a recepção no país e as críticas que recebe pela escolha. “O povo ucraniano é muito gentil, dócil. Eles trazem um sentimento de lar. Então, para mim, isso aqui é espetacular. Fora a beleza das terras ucranianas, que é incrível”.
Mesmo diante de julgamentos, ele afirma que não se deixa afetar. “Eu apenas ignoro. A crítica deles não interfere na minha vida, no meu dia a dia ou no meu trabalho. Eu realmente não ligo para esse tipo de crítica de quem está julgando a pessoa por fazer o que ela quer, o que ela acha certo, moralmente falando ou eticamente falando”.

Sobre o medo da morte, Eduardo admite receio, mas diz que desistir não é uma opção. “Assim, todos nós temos medo. A diferença é como você vai reagir com o medo, né? Sim, já tive medo, com toda certeza, mas eu não me deixei parar por conta disso”.
Futuro após o fim da guerra
Ao falar sobre o futuro, Eduardo revelou planos de permanecer no país. “Quando o conflito terminar, eu tenho planos de continuar morando na Ucrânia. Tenho planos para retirar minha cidadania e tudo mais. Quero realmente ficar aqui. Tenho planos de me casar também, começar um negócio próprio e por aí vai”.
Ele também afirmou que pretende visitar o Brasil ainda este ano. “Eu planejo visitar o Brasil. Não vou dizer a data, mas eu planejo sim visitar o Brasil. Tem um evento importante para comparecer. Dois eventos, na verdade. Mas eu planejo só visitar mesmo. Vou lá, marco presença e depois retorno”, finalizou. Assista a entrevista completa:
Uma nova rodada de negociações de paz entre delegações da Rússia e da Ucrânia está prevista para ocorrer entre quarta e quinta-feira (4 e 5), conforme informou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

O governo de Kiev está sob pressão dos Estados Unidos para aceitar um acordo de interrupção da guerra. No sábado (31), o enviado russo Kirill Dmitriev afirmou ter realizado uma “reunião construtiva com a delegação de pacificação dos EUA” na Flórida.
Até o momento, poucos detalhes sobre as conversas em Abu Dhabi foram divulgados. A iniciativa é encabeçada pelo governo de Donald Trump, e as tratativas por um acordo de paz seguem em andamento.
LEIA O RESUMO DA MATÉRIA ABAIXO:
- Pontagrossense atua como voluntário na guerra da Ucrânia e relata experiências na linha de frente
- Eduardo Kedan descreve ataques, processo seletivo e desafios do conflito
- Combatente planeja permanecer na Ucrânia após o fim da guerra, mas pretende visitar o Brasil




















