Os desafios dos museus em tempos de pandemia

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08 de agosto de 2020 05:00

Da Redação


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Gestores e historiadores respondem sobre as dificuldades enfrentadas nos museus neste período, as inovações e o pós-pandemia

Desde meados do mês de março museus públicos e privados do Estado do Paraná estão fechados, seguindo Decreto do Governo como forma de prevenção ao contágio do Coronavírus. Desde então o setor museal precisou cancelar ou adiar a agenda cultural, se adequar ao novo contexto que afetou museus do mundo todo. Sem previsão para retornar as atividades com o público algumas instituições fizeram relatos das dificuldades enfrentadas neste período.

“Tivemos que mudar rapidamente nossos hábitos e, em pouco tempo nos adaptar às novas formas de trabalho. Foi uma mudança imposta e necessária, exigindo da equipe uma forma diferente de pensar e agir enquanto perdura o distanciamento social”, conta Danielle Borges, analista de projetos culturais da Fundação Cultural Suábio-Brasileira de Entre Rios, em Guarapuava.

O professor doutor Niltonci Chaves, diretor geral do Museu Campos Gerais, instituição administrada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), relata as dificuldades enfrentadas desde que o museu fechou para atendimento ao público. “São cerca de 150 dias com o museu fechado e sem atividades presenciais, temos problema estrutural, nossos servidores alocados no museu estão em sua grande maioria enquadrados no que chamamos de grupo de risco, por idade ou por comorbidade, isso afeta o trabalho interno. Nesse processo precisamos suspender uma agenda de exposições que tínhamos estruturada para o ano de 2020, com quatro grandes exposições que foram postergadas”.

O Museu Campos Gerais é um museu universitário, além das exposições, é um importante banco de dados de apoio para pesquisas de graduação e de pós-graduação e o professor doutor comenta a sua preocupação em não poder atender aos grupos de pesquisas. “Temos os arquivos históricos Hugo Reis, composto por várias séries documentais, em virtude do museu estar fechado não temos como atender este público, neste momento não estamos atendendo os pesquisadores e isso nos incomoda muito e, no entanto, não há o que fazer para suprir pelo menos esta demanda”.

Com uma realidade diferente o Centro Cultural Castrolanda, memorial da imigração holandesa que fica na cidade Castro, é um museu privado que conseguiu manter o ritmo de trabalho interno similar ao organizado antes da pandemia e estão atendendo pesquisadores. “Uma ação que foi mantida, porém de forma remota, foram os atendimentos aos pesquisadores externos, nos últimos meses, atendemos estudantes e pesquisadores que usaram o período de quarentena para intensificar os estudos, desenvolver projetos. Disponibilizamos materiais documentais, iconográficos, bibliográficos conforme a necessidade do pesquisador, tudo feito remotamente”, explica Samara Lima que é historiadora no Centro Cultural.

No Heimat Museum Witmarsum, da Colônia Witmarsum em Palmeira, se beneficiaram deste período para fazer arrolamento, atividade de reconhecimento e catalogação do acervo da instituição. “Aproveitamos esse momento em que o museu está fechado para fazermos bagunça, no sentido de virar o arquivo do avesso para garimpar informações, fazer pesquisa, arrumar a casa e fazer o que não é possível com o fluxo de visitantes por termos uma equipe reduzida. Claro que esse não é o cenário que gostaríamos, mas estamos utilizando para fazer muita coisa”, afirma Ricardo Kasburg Philippsen, diretor do museu Heimat Museum Witmarsum.

Historiador e coordenador cultural do Parque Histórico de Carambeí, Felipe Pedroso, fala das dificuldades enfrentadas e que os meios digitais se tornaram aliados. “Nos tempos de isolamento, a atuação dos museus tem sido um grande desafio, afinal, os museus necessitam de público, tanto para a geração de receita (no caso de museus privados) quanto para justificar sua própria existência. Trabalhar sem o público visitante fisicamente é uma nova realidade, mesmo que uma parcela das instituições museais já estivesse trabalhando suas versões digitais, trabalhar somente nesse modelo é realmente novo”. Chaves enfatiza a fala de Pedroso e ressalta o obstáculo. “O desafio é fazer com que o museu tenha atratividade mesmo estando fisicamente fechado, já que o museu vive da presença do público e neste momento isso não é possível. ”

Investimento nos meios digitais

Felipe destaca que meio a tantas mudanças, os meios virtuais estão auxiliando no relacionamento entre o museu e o público, que acabaram aproximando pessoas de outras regiões e o Parque tem investido nesta ferramenta. “Notamos um maior engajamento da nossa audiência nas mídias sociais, tem acontecido uma interação muito bacana, não somente do público regional, já habitual, mas sentimos que atingimos outros Estados com o conteúdo que temos gerado. O Parque Histórico criou o Programa de Cultura em Casa que reúne toda a produção que temos feito neste período: vídeos, textos, games e atividades colaborativas, e a recepção tem sido muito positiva”, anima-se.

Amélia Podolan Flügel, historiadora do Museu do Tropeiro da cidade de Castro, conta que intensificaram as ações digitais, o que tem dado resultado. “Sem a possibilidade de atendimento presencial aos visitantes, optamos por intensificar a comunicação nas redes sociais como forma de mantermos a conectividade com o público, de forma que utilizamos conteúdos de nossos arquivos para produção de mídias digitais, como vídeos, por exemplo. Essa proposta se mostrou bem-sucedida na medida que obteve grande interesse e envolvimento das pessoas com os temas apresentados. Acreditamos que esse diálogo digital tornar-se-á permanente na instituição”.

No Centro Cultural Castrolanda o trabalho com os meios digitais também foi otimizado. “As inovações propostas foram principalmente nas redes sociais como Instagram e Youtube. – ferramentas que antes eram usadas de forma secundária e hoje ganharam destaque na rotina de trabalho. A ação educativa: Um meio de se conectar, em parceria com professores dos Campos Gerais para a produção de material didático, com temas vinculados a história e a cultura de holandesa de Castro. Essa ação, além de oferecer diálogo, mesmo que remoto, abre a discussão sobre a acessibilidade ao espaço museal, onde alunos, que muitas vezes não podem ou não conseguem acessar o espaço cultural, passam a interagir com nossas atividades, espaços e pessoal”, expõe Samara.

O Museu Campos Gerais está investindo na publicação de vídeos e documentários e em breve apresentará novidades. “Estamos desenvolvendo dentro das nossas limitações, técnicas e humanas, alguns produtos no site do museu: visita 360°, vídeos gravados por pessoas que trabalham conosco e que nos assessoram, postamos alguns documentários de parceiros que produziram dentro do museu. Logo, dentro de uns 30 dias, lançaremos nosso primeiro grande projeto virtual que demonstra e adequação a esses tempos em que a presença física é restrita, ou não existe até porque o museu está fechado”.

Pós-pandemia

Esse período tem muito a ensinar sobre as relações entre público e museu, principalmente no quesito espacial, tecnológico e de acessibilidade, admite Lima. “O museu mais acessível também será um ponto bem debatido, não somente a acessibilidade estrutural e digital, mas as ações que os espaços de memória deverão desenvolver para atingir o público não visitante – aqueles que não tem acesso ao espaço, ao ambiente digital, ao mecanismo de uso – proporcionar ações de integração entre museu e comunidade de uma forma muito mais intensa, realmente como um espaço educador e transformador”.

Para Philippsen é necessário aproveitar esse momento para investir na comunidade. “É importante fortalecer a economia local, como o museu podemos fazer a nossa parte também e trazer a comunidade para perto, fazer com que as pessoas se sintam parte integrante. Neste momento evitamos viajar para longe, passamos a olhar ao redor, buscando soluções mais próximas, faz a diferença ter uma comunidade sólida e o museu é uma ferramenta útil para esse fortalecimento local, ter uma identidade forte é uma coisa que ajuda nesse processo e acaba sendo uma das funções do museu“.

As inovações aplicadas neste período de isolamento permanecerão nos museus, os cuidados sanitários também continuarão e Danielle presume que algumas ações online poderão substituir presenciais. “Muito do que está sendo praticado agora vai ficar no pós-pandemia e evoluir – as experiências culturais a partir do uso de tecnologias em busca de maior envolvimento virtual. Acreditamos que o interesse pela cultura e pela história irão permanecer, porém com uma preocupação maior com os cuidados sanitários, no entanto, certamente, o online vai substituir algumas coisas ou ser privilegiado por algumas pessoas”.

Pedroso finalizada falando das incertezas de um futuro próximo e reforça a importância dos museus investirem no mundo virtual. “O futuro dos museus no pós-pandemia ainda é incerto, mas com certeza será levado em consideração uma atuação remota mais incisiva, a virtualização dos museus agora é uma realidade difícil de fugir”.

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