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Crônicas dos Campos Gerais: ‘Os óculos’

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21 de maio de 2020 13:00

Da Redação


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A ponta-grossense Aline é ex-acadêmica de Direito na Uepg, caloura de farmácia na Usp e segue buscando os sonhos na Medicina e na escrita Foto: Divulgação
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O texto de hoje é de autoria de Aline Sviatowski, ex-acadêmica de Direito da UEPG

 

            Vinte e dois. O número de dias em que o jovem operário da indústria cervejeira deixou seus filhos em expectativa para o grande passeio. Seu filho mais velho, sua filha mais nova e o cão tão branco quanto leite fresco. Todos acordavam e dormiam à espera. Todo dia, um dia a menos; toda hora, uma hora a menos.

            Segunda-feira, ao sair para o trabalho, o jovem pai era acompanhado do cão. Rex. Seguia-o até a imponente indústria. Cinco da tarde, fiel e pontualmente, o cachorro ia buscar o seu dono, desde sua casa até a porta da fábrica. Até uma lambida de cerveja ganhava, pois parecia gostar do malte ao balançar seu rabo em sinal de alegria, mas suas reais recompensas eram o afago discreto e algum graveto pelo caminho. Alguns quilômetros de caminhada. Janta. Polenta ao cão, sopa de repolho ao pai.

            Terça, quarta, quinta, sexta, sábado. Finalmente, domingo! O sol refletia um pouco mais no cabelo loiro e ralo do menino mais velho. Rex lambia os dedos da menina, acordando-a. Pulos de alegria. O domingo mais feliz de 1962.

            Partiram todos. Sete horas da manhã. Carregados pelos próprios pés, a caminhada de quatorze quilômetros iniciou com a leve presença do sol e a promessa de banho em água fresca. Capão da Onça. Suas águas suaves entre pedras e verdes colinas, abraçam tais quais grandes braços de araucárias. O jovem operário e sua família contavam anedotas, cantavam músicas, criavam duráveis lembranças no campo da memória com emoções únicas. A expectativa, aliada à paisagem rica e ao simples conforto familiar, traria lembranças que perdurariam diante das agruras do futuro e chegariam às gerações posteriores.

            O sol ergueu-se: ausência de sombra. Ensaiava-se a hora de voltar. Duas horas e meia de caminhada. Virando a esquina para chegar em sua casa, o jovem operário apalpa seu bolso. Onde estariam seus óculos? Ninguém sabia. Por que levou seus óculos para uma cachoeira? Ninguém sabia. E ali foi o jovem operário. Caminhou mais quatorze quilômetros até encontrar seu fiel tradutor de imagens: em cima da pedra em que sentou a manhã toda. Mais quatorze quilômetros. O cão branco estava praticamente transparente.

            O jovem, esquecido por genética, chegou pontualmente para a janta especial de domingo: pierogi. Todos “bronzeados” – leia-se vermelhos – riam até doer a barriga agora repleta de uma exímia culinária. Assim foi, o domingo mais feliz e esquecido de 1962, pode procurar nos livros de História.

 

Texto escrito no âmbito do projeto Crônicas dos CamposGerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

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