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Crônicas dos Campos Gerais: ‘Cosmogonias subalternas’

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08 de abril de 2020 12:00

Da Redação


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O texto de hoje é autoria de Juliano Lima Schualtz, estudante de História da UEPG. Boa leitura!

Na tapera, ainda de chão batido. O avô, com o cachimbo tapando a boca quase banguela; trajando sua camisa de pano, calça de linho e sandálias, aconchegava-se ao lado do fogão a lenha. No sopé do fogão, havia uma canastra de bambu entulhada com sapés. Na chapa escura e quente, assavam pinhões, nacos de toucinho e lambaris. Em volta, seus netos ouviam seus causos. Ficavam boquiabertos com a memória comprida do avô, um arroio de boatos. Sempre sobrava mais uma estória para o dia seguinte. Para ele, que não sabia escrever na língua escrita, o velho aedo imprimia sensações na língua falada:

— Sabe, netos meus, me alembro de uma estória sobre um tropeiro, cruzei com ele numa dessas travessias da juventude, inda quando São João do Triunfo era um matagal. Esse causo tem uma boniteza, pera que vou acender o pitador, é semeador.

— Estava eu pescando umas traíra na lagoa, quando por estripulia a água começou a subir, parece mentira, mas chovia de baixo pra cima. Olhava de lado pra ver o tamanho da chuvarada, reparei que um arco-íris começou a me seguir. Mas o tropeiro guardou na algibeira, ficou alumiada. Ele me disse que quando para de chover, o céu morre, e o arco-íris é seu espírito que desce na terra e sobe de volta.

Essas estórias curtas que viviam em um menino octogenário, eram declamadas, ali, na casinha de chão batido, com a luz ora da brasa do fogão, ora da baforada do lampião. Minha avó, ouvindo do outro lado, continuava tricotando enquanto os lábios distribuíam um riso rouco. Vovô falava que um bom causo só existe quando ele é ouvido. O fuxico das coisas encantadas precisa de público.

 O avô também era mestre em assuntos que versavam sobre a licantropia. Jurava de pés juntos que em época de quaresma, o vizinho que noutro dia viesse pedir sal era lobisomem. Estudioso da antropologia da Caipora, analista da evanescente aparição dos boitatás, que segundo ele, faziam festas em seu quintal. Um dia, conta, até consolou uma bruxa: roubaram sua vassoura. Mas seu tesouro enterrado ninguém usurpou. Era especialista no fantástico enraizado na imaginação subalterna. O tom um pouco lúdico, e um pouco assombroso, servia para criar juízo em seus netos.

Há sempre uma magia que sustenta a força e o riso da gente comum. No fim de sua vida, ele passou a habitar a terceira margem do rio, mas seus causos desaguaram no coração dos netos. Quem tem estórias para partilhar, consegue ir sempre um passo além da margem: caminha na contracorrente da cachoeira.


Texto produzido no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

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