Crônicas dos Campos Gerais: ‘A Praça da Matriz e a Capoeira’

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20 de fevereiro de 2020 12:40

Da Redação


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Jeferson é natural de Imbituva, mas atualmente mora em São João do Triunfo. Na atual cidade, junto dos seus familiares, trabalha com a agricultura orgânica ao mesmo tempo que estuda e procura espaço escolar para lecionar a disciplina de História, sua área de formação Foto: Divulgação
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O texto de hoje é de autoria de Jeferson do Nascimento Machado, agricultor de São João do Triunfo 

Encontro-me na Praça da Matriz, um pequeno espaço de lazer, localizado no centro da cidade de Imbituva. O local é composto por elementos naturais – árvores, gramados, flores e arbustos­ – e não-naturais, produtos do trabalho humano – bancos, calçadas e a Paróquia Santo Antônio. Nesta praça nasceram amizades, namoros... mas fora esses acontecimentos cotidianos, o lugar também serviu de palanque para fascistas, repressores... Aqui discursou Plínio Salgado, foram realizadas passeatas e marchas militares durante a Ditadura. Por outro lado, este mesmo lugar foi ponto de encontro de jovens, que por diversas vezes reuniram-se para discutirem as mazelas sociais e buscarem alternativas ao velho mundo.

Agora, dirijo-me para o outro lado da praça. Noto que várias pessoas, vestidas de branco e algumas segurando instrumentos, aglomeram-se abaixo de algumas árvores. Aos poucos se forma um círculo. Em seguida, passam a tocar e a cantar. Aqueles que não empunham instrumentos caem nas palmas e respondem o coro. Sem demora, duas pessoas se dirigem sob os que tocam os instrumentos, agacham-se, tocam a mão um do outro e adentram o círculo, realizando uma cambalhota. Agora eles estão no centro do círculo e realizam movimentos em grande sincronia. Parece uma luta! Parece uma dança! Trata-se de uma tradicional roda de capoeira, que ocorre aqui desde a década de noventa. Aliás, as primeiras aulas de capoeira da cidade foram realizadas nesse local.

Não tarda e a roda começa a seduzir os transeuntes. Homens, mulheres, crianças e casais que estavam passando agrupam-se em torno da roda. Imediatamente, mesmo que de forma tímida, passam a bater palmas e a responder o coro. Isso anima os capoeiristas, que aceleram o jogo e começam a realizar movimentos cada vez mais complexos. Alguns dos transeuntes, mais extrovertidos, chegam a entrar na roda e arriscar algumas pernadas.

Todavia, se hoje a capoeira é tão querida na cidade, antigamente ser capoeirista era estar deslocado da identidade “verdadeira”, a de imigrante europeu. Naquele tempo, tudo era mais difícil e existiam vários estereótipos atribuídos àquele que jogasse a capoeira. Chamar o berimbau de “cachimbo de preto”, o capoeirista de macumbeiro, de vadio ou bandido, eram alguns dos modos de o preconceito se manifestar.

Entretanto, os capoeiristas não desistiram, não arredaram o pé. E foi por terem resistido ontem que podemos desfrutar hoje desta expressão nacional e regional.

Texto escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais 

 

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