Mineração nos Campos Gerais gera R$ 2,5 bilhões em receitas entre 2019 e 2024
Gustavo Mandalozzo, presidente do Sindiminerais Paraná, revela gargalos, mas destaca otimismo para 2026 com mais tecnologia e esforço coletivo

Em um período marcado por uma expansão recorde de 43% em receita e 129% em volume de produção mineral, alcançando R$ 2,5 bilhões entre 2019 e 2024, o setor da mineração nos Campos Gerais consolida-se como um dos pilares da economia e da geração de empregos no Paraná. Gustavo Mandalozzo, presidente do Sindiminerais Paraná, revela os bastidores de um setor vital para a construção civil e para a indústria paranaense.
Presente em 317 municípios do estado, a mineração dos Campos Gerais impulsiona cadeias produtivas estratégicas, mas enfrenta gargalos relevantes, como licenciamentos ambientais demorados e complexos, infraestrutura viária precária e exigências regulatórias cada vez mais complexas. Nesta entrevista, Mandalozzo aborda iniciativas espontâneas de sustentabilidade, bem como o papel fundamental da FIEP, presidida por Edson Vasconcelos, tanto na relação institucional e na capacitação profissional, além da rotatividade da mão de obra qualificada e das perspectivas otimistas para 2026. Conheça os desafios, oportunidades e o futuro de um setor que irradia desenvolvimento do Paraná para todo o Brasil.
1. Segundo o IAT, a produção mineral do Paraná cresceu 43% em receita e 129% em volume entre 2019 e 2024, chegando a R$ 2,5 bilhões. Como o senhor avalia o cenário em 2025 e quais são as expectativas para 2026?
Gustavo Mandalozzo: O cenário econômico hoje é diferente dos anos anteriores. Existe uma expectativa relacionada a estabilidade no ambiente político, mas os mineradores continuam trabalhando com muito empenho. O grande entrave tem sido a demora nos licenciamentos ambientais. A FIEP tem atuado em reuniões com o Instituto Água e Terra (IAT), mas o mercado segue mais lento, e os processos nos órgãos públicos acabam dificultando o avanço do setor.
Para que uma mineradora opere legalmente, são necessárias autorizações municipais, estaduais e federais. Quando um empreendedor inicia hoje um requerimento de área, pode levar muitos anos até conseguir produzir. Por isso, a expectativa para o futuro é cautelosa, já que os procedimentos de legalização da mineração no Brasil são extremamente demorados.
2. O setor mineral está presente em 317 municípios paranaenses, incluindo os Campos Gerais. Qual é o papel da mineração regional no desenvolvimento do agronegócio e da construção civil?
Gustavo Mandalozzo: Se fôssemos representar graficamente, colocaríamos o Paraná como um centro irradiador, com vários fluxos saindo para outros estados. Produzimos insumos de alta qualidade que abastecem mercados como Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e São Paulo. O maior polo cerâmico do país, em Santa Gertrudes (SP), é um grande consumidor dos nossos minerais.
Ao mesmo tempo, muitas indústrias operam hoje com cerca de 50% da capacidade dos fornos. Ainda assim, o calcário segue com demanda consistente, pois é o insumo mais acessível para correção da acidez do solo no agronegócio. As empresas que fornecem minerais para a indústria têm elevado significativamente o cuidado com a qualidade da produção.
3. Quais são os principais desafios logísticos enfrentados pelo setor?
Gustavo Mandalozzo: Na região do Socavão, no município de Castro, uma das maiores áreas produtoras de minerais do Paraná, circulam diariamente centenas de caminhões. Já avançamos em etapas importantes de pavimentação, como por exemplo, 15 km executados pelo Exército de Castrolanda até a entrada do Abapã; 12 km que partiram do Socavão, sentido Castro, faltando apenas 12 km, entre os trajetos citados.
Os projetos adicionais já foram entregues ao governo do Estado por iniciativa conjunta de mineradores, cooperativas e outros interessados. Já há garantia de execução da obra, o que permitirá a pavimentação completa do trecho.
Em Itaiacoca, outra área estratégica, o asfalto é da década de 1980 e necessita de reconstrução. Recentemente, uma interdição foi resolvida por meio de parceria entre os mineradores e a Prefeitura de Ponta Grossa, com apoio do vereador Júlio Küller. Esses são exemplos práticos das dificuldades enfrentadas diariamente pelo setor.
Ponta Grossa é um entroncamento rodoferroviário fundamental para o escoamento da produção em direção ao porto, o que gera congestionamentos e acidentes frequentes, especialmente no Distrito Industrial. Não basta apenas ampliar estradas; é necessário criar novas rotas e alternativas logísticas.
4. Como está a arrecadação da CFEM e a destinação desses recursos aos municípios produtores?
Gustavo Mandalozzo: Essa sempre foi uma preocupação do setor. Os valores arrecadados por meio da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) retornam aos municípios, que têm autonomia para aplicar esses recursos conforme suas prioridades. Isso foge da esfera de atuação do Sindiminerais Paraná.
Quanto maior for a produção e a comercialização, maior será a arrecadação e, consequentemente, a capacidade de investimento do poder público. Em Ponta Grossa, por exemplo, há uma atenção especial a esse tema, com atuação destacada do secretário municipal Cláudio Grokowiski.
5. O IBGE apontou crescimento de 5,3% na indústria paranaense. Como esse desempenho impacta a mineração?
Gustavo Mandalozzo: O minério está presente em praticamente tudo o que consumimos. Em um cenário de aumento do consumo, a tendência natural seria o crescimento da mineração. No entanto, atualmente observamos uma retração, muito em função da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada e dos entraves logísticos. Dependemos integralmente do transporte, que envolve três etapas: da mina até a indústria, no processo de industrialização e a distribuição do produto final.
Esse desempenho tem efeito direto sobre a demanda por minerais não metálicos, pois amplia a necessidade de insumos para construção de plantas industriais, galpões logísticos e infraestrutura e fortalece cadeias como cimentos, cerâmica, pré-fabricados e materiais de construção, que são grandes consumidores de calcário, brita, areia e argila.
Nos Campos Gerais, esse movimento se traduz em carteiras de pedidos mais estáveis, maior previsibilidade de produção e estímulo a investimentos em capacidade instalada e tecnologia por parte das mineradoras locais.
6. A FIEP e o Ministério de Minas e Energia (MME) reforçam a crescente pressão por práticas ambientais e sociais responsáveis. Como as mineradoras dos Campos Gerais estão se adaptando às exigências de sustentabilidade e qual é o impacto isso para 2026?
Gustavo Mandalozzo: A sustentabilidade é um conceito fundamental, mas se torna preocupante quando normas são criadas por quem não vivencia a realidade da produção. No Brasil, as exigências para concessão de lavra são extremamente rigorosas e aumentam constantemente.
A supressão vegetal já representa um grande desafio, e novas legislações exigem, por exemplo, planos de afugentamento de fauna, elevando custos e burocracia. O processo administrativo para obtenção de licenças ambientais é caro e lento. Para se ter uma ideia, existem áreas requeridas desde 2003 que ainda aguardam autorização.
Por outro lado, o setor mineral tem adotado iniciativas voluntárias importantes, como recuperação de áreas mineradas, uso de energia fotovoltaica e modernização de frotas para redução de emissões. Em muitos casos, as empresas vão além do que a legislação exige.
Na região dos Campos Gerais, as empresas de minerais não metálicos vêm se adaptando por meio de regularização e atualização de licenças ambientais junto ao IAT; planos de recuperação de áreas degradadas e controle de poeira, ruído e vibração; investimentos em segurança de operações, treinamento de colaboradores e diálogo com comunidades do entorno.
Para 2026, o impacto esperado é duplo, tanto nos custos adicionais de conformidade, como também na redução de riscos regulatórios, oportunizando uma maior aceitação social e melhor imagem das empresas, o que é crucial para obter licenças e renovações de forma mais célere.
7. Empresas paranaenses têm investido em automação e reaproveitamento de rejeitos, segundo estudo da FIEP. Como está este cenário para as mineradoras na região na implementação dessas tecnologias?
Gustavo Mandalozzo: Minérios que há 20 ou 30 anos não tinham aplicação comercial hoje estão sendo plenamente aproveitados. A indústria tem se adaptado, mas isso exige um grande esforço técnico para adequar a composição dos minerais a diferentes usos, especialmente na cerâmica.
Quando a composição do minério muda, é necessário ajustar a massa com outros minerais para manter a qualidade do produto final. É um trabalho complexo, mas essencial para o aproveitamento integral dos recursos.
No caso das mineradoras observamos a substituição gradual de processos manuais por sistemas de britagem, peneiramento e carregamento automatizados; o uso de softwares de planejamento de lavra e controle de estoque; e experiências crescentes com reaproveitamento de finos, pó de pedra e rejeitos para produção de agregados menores, blocos, artefatos de concreto e estabilização de vias.
O desafio para 2026 é ampliar essas práticas entre micro e pequenas empresas, garantindo acesso a crédito, assistência técnica e soluções tecnológicas compatíveis com sua escala.
8. Cerca de 85% das mineradoras paranaenses são micro ou pequenas empresas. Que tipo de apoio o sindicato oferece ou pretende oferecer para fortalecer esse público em 2026?
Gustavo Mandalozzo: O Sindiminerais Paraná atua principalmente como interlocutor entre as empresas e os órgãos públicos, buscando o cumprimento da legislação e dos prazos legais, especialmente quando os problemas impactam todo o setor de forma coletiva.
Entre as ações prioritárias em curso e planejadas para 2026 estão a execução de programas de capacitação gerencial, trabalhista e ambiental; o apoio à regularização fundiária e documental, incluindo licenças e outorgas; e com a ajuda da FIEP, a articulação com instituições financeiras para linhas de crédito específicas para modernização de equipamentos.
9. Como está a qualificação da mão de obra na mineração?
Gustavo Mandalozzo: A FIEP realiza um excelente trabalho de capacitação, oferecendo cursos alinhados às demandas do setor. O Paraná é um estado extremamente favorável ao investimento. Sem esse apoio, teríamos muito mais dificuldades.
Ainda assim, a rotatividade é alta. Muitos trabalhadores permanecem apenas dois ou três anos nas empresas. Há mais vagas do que profissionais qualificados, especialmente para operadores de equipamentos pesados.
10. A inovação e a Indústria 4.0 estão reduzindo empregos na mineração?
Gustavo Mandalozzo: O setor vive uma transição. Historicamente, as mineradoras mantinham funcionários por décadas, mas hoje a rotatividade é maior. Apesar da modernização dos equipamentos, a mineração ainda depende fortemente da mão de obra humana.
Na indústria cerâmica, a automação é muito mais avançada. Fábricas que antes empregavam cerca de 100 pessoas hoje operam com poucos operadores. Já na mineração, mesmo com o avanço da Indústria 4.0, a necessidade de profissionais qualificados continua elevada.
11. O governo federal tem incentivado o beneficiamento mineral e a exportação de produtos com maior valor agregado, de acordo com a Política Mineral Brasileira. O Paraná tem potencial para desenvolver mais beneficiamento mineral e reter riqueza no estado?
Gustavo Mandalozzo: Com a guerra na Ucrânia, o Brasil passou a exportar argila para a Europa, já que a Ucrânia hoje tem dificuldades na produção. São produtos com baixo nível de beneficiamento. Em Ponta Grossa e Castro, no entanto, já existem empresas que industrializam e comercializam seus produtos para todo o Brasil, com qualidade que inclusive possibilitou exportações, ainda que em menor escala.
No caso do Paraná, uma característica positiva é que praticamente toda a produção mineral já é industrializada dentro do próprio estado, alimentando cadeias.
Isso mostra que há alto potencial de aprofundar o beneficiamento, com desenvolvimento de novos produtos, bem como ampliar plantas de moagem, classificação e mistura. Nosso diferencial é a qualidade do produto nesta região dos Campos Gerais, que é muito elevada.
O desafio é passar de um modelo baseado em alto volume e baixo valor unitário para um modelo que combine volume com maior valor agregado por tonelada, retendo mais riqueza, empregos qualificados e inovação no Paraná.
12. Analistas alertam para o aumento dos riscos regulatórios e ambientais no setor. Quais são os principais riscos e oportunidades para a mineração em 2026, considerando esse cenário?
Gustavo Mandalozzo: O maior risco é o crescimento contínuo das exigências regulatórias e ambientais, que chegam a patamares muito elevados. É fundamental que haja comprometimento dos servidores públicos responsáveis pelo licenciamento e pelas outorgas, pois o descumprimento de prazos impacta diretamente a viabilidade dos empreendimentos.
O sindicato atua para mitigar os riscos por meio de diálogo institucional e apoio técnico às empresas, ao mesmo tempo em que incentiva investimentos em inovação, gestão e conformidade ambiental.
13. Como a FIEP tem atuado em defesa do setor?
Gustavo Mandalozzo: A FIEP conta com assessoria parlamentar e jurídica altamente eficiente. O presidente da entidade, Edson Vasconcelos, está sempre disponível e atende prontamente às demandas do Sindiminerais Paraná. Trata-se de uma gestão presente e extremamente atuante.
14. Que mensagem o senhor deixa para as empresas pensando em 2026?
Gustavo Mandalozzo: Diante do aumento da demanda e da competitividade, os empresários do setor mineral são verdadeiros heróis por conseguirem cumprir todas as exigências legais. Muitos já estão investindo em capacitação de mão de obra, cursos e treinamentos com apoio da FIEP, que oferece suporte técnico e regulatório.
15. Quais são as expectativas do setor para 2026?
Gustavo Mandalozzo: As expectativas são positivas. Os mineradores têm feito um grande esforço coletivo. Sabemos que 2026 será um ano desafiador, que exigirá investimento em tecnologia, capacitação de equipes e muito trabalho, mas estamos confiantes em bons resultados.
RESUMO
Crescimento e relevância econômica: O setor de mineração nos Campos Gerais registrou expansão recorde entre 2019 e 2024, consolidando-se como fornecedor essencial de insumos para o agronegócio e a construção civil em vários estados.
Principais gargalos: O desenvolvimento do setor enfrenta obstáculos como a lentidão excessiva nos licenciamentos ambientais, a alta rotatividade de mão de obra qualificada e a necessidade de melhorias na infraestrutura logística e viária da região.
Perspectivas e sustentabilidade: Para 2026, a expectativa é de continuidade no crescimento, com foco em investimentos em automação, reaproveitamento de rejeitos e práticas sustentáveis para atender às rigorosas exigências regulatórias.
Com informações da assessoria de imprensa.





















